O produtor rural sergipano e os impactos da covid-19

 O produtor rural sergipano e os impactos da covid-19

São quatro horas da manhã quando Danilo Mendonça Lima, 22 anos, levanta da cama para mais um dia de trabalho no sítio da família, localizado no Povoado Lagoa D’água, no município de Ribeirópolis. Entre tomar café da manhã, fazer a ração para o gado e seguir para a plantação pela estrada de barro seco, Danilo vê o sol nascer no sertão sergipano.

 

A fome, as incertezas, as lutas diárias e o medo do coronavírus fazem parte da rotina de muitos trabalhadores do campo

Esta é a rotina do jovem ribeiropolense, que desde os 11 anos se dedica ao campo, principalmente após o falecimento do pai, José Ferreira, mais conhecido como Zé da Maroca.

Na região em que Danilo mora, vivem cerca de 500 famílias e é marcada pelo desenvolvimento da agricultura familiar, atividade que ele, a mãe, Marizete Mendonça Lima, mais conhecida como Marizete de Zé da Maroca, e a namorada de Danilo, Géssica Santana Mendonça Góis, 20, seguem trabalhando há anos. Dos dois terrenos que pertencem à família de Danilo, apenas um é utilizado para a plantação. Nas quatro tarefas, ele e dona Marizete cultivam macaxeira, quiabo, pimenta malagueta e milho – que é um dos cereais mais produzidos pelos municípios sergipanos de Simão Dias, Carira, Glória e Frei Paulo. O outro terreno serve apenas para a criação de 11 cabeças de gado que anualmente são comercializadas por ele.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, cuidar do plantio e da colheita tornou-se um trabalho ainda mais árduo após a série de restrições estabelecidas pelo governo com o objetivo de conter o avanço do novo coronavírus. Para Danilo, a comercialização ainda estava fluindo mesmo com os primeiros casos de infectados pela covid-19 no estado de Sergipe, mas a situação começou a se complicar após o cancelamento das feiras livres, fechamento do comércio, bares, restaurantes e a criação de barreiras sanitárias nos municípios.

“No sentido de custo de produção foi muito complicado. Se você produzia, [antes] conseguia manter a plantação e ainda sobrar para você, agora não é mais possível sobrar quase nada. Dobrou o custo de produção e mão de obra, porque precisa contratar pessoas para colaborar”. Ele conta que até o valor da diária sofreu reajustes. “Se a diária era R$50, passou para R$60. Se era R$60, passou para R$70. Na região, tem gente que cobra até R$90, R$100 por uma diária, por causa da pandemia. Hoje, a gente quase não contrata”.

Por causa deste custo, um dos alimentos que eles optaram por parar de plantar foi a batata doce, pois antes, semestralmente, colhiam em média cinco toneladas, mas no semestre em que a pandemia começou, eles passaram a colher apenas três. Além disso, no mesmo período de tempo eles conseguiam colher duas toneladas de macaxeira e, antes da pandemia, mensalmente conseguiam 200 quilos de pimenta malagueta. Com relação à plantação do quiabo, a colheita tem sido positiva. Antes, eram colhidos 10 sacos de quiabo por semana e atualmente eles conseguem 23. “O custo de produção é mais baixo. Não sou responsável por comercializar na feira. Só repasso, evitando gastos com frete, pano de saco, costura”, explica.

Danilo conta que chegou a receber o auxílio emergencial do governo federal, nos valores de R$600 e, posteriormente, R$300, mas sentiu falta de apoio da prefeitura da cidade e do Governo de Sergipe. “Eu ouvi falar que houve distribuição de silagem de milho para animal, em 2020, para alguns povoados [de Ribeirópolis]. No sentido geral de acolhimento, têm algumas ações, mas coisas mínimas para ter mídia. Não acolhe grande parte dos agricultores”.

Com as despesas de energia, adubo, agrotóxicos e mão de obra, economizar tem sido a palavra de ordem. Uma alternativa para poupar água, por exemplo, tem sido a reutilização da água da chuva, além de realizar a irrigação das plantações através do sistema de gotejamento.

“A energia elétrica, pelo decreto de 2013 [Lei 12.787 de 2013 sancionada pela presidenta Dilma Rousseff], nós conseguimos um abate no valor final. Dependendo do preço, pode chegar a R$40. Mas geralmente o daqui vem custando R$300. Aí você veja, o saco de adubo R$170, o veneno [agrotóxico] que antes era R$ 40, R$60 no máximo, hoje custa R$100, R$130, R$200 e tem até de R$750”, detalha.

Embora dedique a maior parte do tempo à agricultura, Danilo também divide seu tempo com os estudos. Atualmente, ele está no 7º período do curso de licenciatura em Geografia no Campus da Universidade Federal de Sergipe, em Itabaiana. Com a suspensão das aulas presenciais por causa da pandemia, Danilo vem assistindo às aulas de forma remota, o que causou a flexibilização de seus horários de trabalho.

Para dona Marizete, que ainda não foi vacinada contra a covid-19, o medo de ser infectada pelo vírus é um inimigo em tempo integral. A aposentada de 59 anos, mesmo com a rotina de dona de casa, não deixa de trabalhar na plantação ajudando o filho e se protegendo como pode. “Segui com a rotina, mas para as feiras não vou mais, pois tenho medo. Eu não saio mais para casas de amigas, pois elas são de idade também. Mas por aqui sigo trabalhando todos os dias”, conta.

Apesar dos desafios diários, colocar a ‘mão na massa’, tem sido a única alternativa para a família de Danilo, além da esperança do avanço da vacinação contra a covid-19. “Se continuar a vacinação, vai abrir as feiras e grande parte das coisas, e os casos, consequentemente, diminuirão. Teríamos uma maior perspectiva de vender com maior facilidade”.

Por fim, ele lamenta a desvalorização da agricultura familiar, atividade que, segundo o Censo Agropecuário 2017, é responsável pela maior parte da produção dos alimentos consumidos no país, além de empregar 74% da mão de obra rural e responder por 38% da renda bruta do agronegócio: “A gente não tem valorização. O apoio estatal é quase nulo. Se continuar da forma que está, do olhar e valorização da gente pelo governo, a gente não tem muito futuro. Quase nenhum. É ‘empurrar com a barriga”’.

Criação de animais

 

Aos pés da Serra de Itabaiana, no Povoado Lagamar, agreste sergipano, fica a Fazenda Bom Sossego, onde atualmente são criadas cerca de 50 cabeças de gado e 27 suínos para comercialização, através do modo de pecuária intensiva para confinamento e depois abate. Quando a pandemia começou a se espalhar e fechar estabelecimentos, o dono da fazenda, José Ademir Oliveira de Jesus, 44 anos, mais conhecido como Demir de Barreiro, precisou demitir três colaboradores e deixou o filho no comando da maior parte das funções. Além disso, seu Demir ainda teve que lidar com os impactos no açougue da família, onde as vendas caíram bastante.

Desde então, José Vitor Santos de Jesus, 21, trancou o curso de Direito para evitar mais custos e tem feito o possível para que a fazenda siga se mantendo firme, trabalhando de domingo a domingo, sempre com a ajuda do companheiro de quatro patas: seu cavalo chamado Apollo For-Me.

A fome e a oportunidade

Em meio às dificuldades, André Lucas Andrade Santos, 20, foi mais um que sentiu os efeitos da pandemia. O aracajuano, conhecido como ‘Coqueiro’, vive na cidade serrana de Itabaiana há 17 anos com sua mãe. Desde o início da crise sanitária, viu o desemprego, as contas e a fome bater à porta. A mãe, dona Andreza, trabalha como diarista, mas precisou deixar o trabalho e foi obrigada a se isolar em casa por ser do grupo de risco. Já Coqueiro, trabalhava como servente de obras.

Com a propagação do coronavírus, também não teve mais oportunidades na área. Desde então, passou por várias dificuldades em casa. Por longos meses, recebeu ajuda de conhecidos que se solidarizaram com os dois, além de conseguir faturar algo quando surgia algum ‘bico’. “Eu não consegui o auxílio emergencial. Ela [a mãe] tirava a parcela do auxílio, mas uma parcela para pagar aluguel, água, energia, bujão e fazer feira. Graças a Deus, recebemos cesta básica de um e de outro. Hoje, a renda mensal é de R$300”, relata o jovem que há três semanas trabalha na Fazenda Bom Sossego.

Diante de tantos desafios diários, fome e o medo de ser infectado pelo coronavírus, para ele é difícil enxergar a luz no fim do túnel.

A secretária de Agricultura, Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Prefeitura de Ribeirópolis, Lucivânia Amarante, disse que há três meses têm feito visitas em povoados e realizado reuniões com produtores rurais para tentar inserir a venda de produtos da agricultura familiar na merenda escolar: “A princípio, as reivindicações do agricultor foi que mantivesse as estradas vicinais transitáveis e que, para facilitar o plantio, agilizasse os tratores para tombar a terra em tempo hábil. Outra reivindicação, é a falta de água para as cisternas e fontes de todos os povoados a qual estamos atendendo as mais precárias imediatamente e as demais gradativamente”. A secretária também falou que a reclamação dos agricultores tem sido o aumento dos insumos e sementes, e que para sanar este problema, é preciso “passar essa pandemia e aumentar a oferta, assim os preços baixam”.

De acordo com André Bonfim, gestor da Secretaria de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural (Seagri), do Governo de Sergipe, somente no escoamento da produção já foram investidos R$ 600 mil em 2020, com incentivos do Programa Estadual de Aquisição de Alimentos (PAA) e, neste ano, o governo vai injetar mais R$ 500 mil, além do investimento de R$ 800 mil em máquinas e equipamentos. “Temos recursos garantidos, também, para regularização fundiária em parceria com o Incra, favorecendo o acesso a crédito para os agricultores”.

Com relação à cidade de Itabaiana, a secretária Lorena Souza, da pasta de Agricultura da prefeitura, disse que mesmo com as restrições causadas pela pandemia e dificuldades de enfrentamento à disseminação no campo, eles têm realizado ações em prol do produtor rural. Além disso, a gestão tem dado o suporte necessário para a realização da feira livre, patrimônio da cidade, que hoje conta com aproximadamente 800 bancas de comercialização de frutas, verduras e hortaliças por feira. “São feitas continuamente ações de conscientização junto a Secretaria de Saúde, distribuição de máscaras, álcool em gel, afastamento de bancas, divisão de funcionamento por setores (Dia de funcionamento X setor), desinfecção de bancas para comercialização, disposição de cartazes educativos, controle de temperatura e disposição de álcool em gel nas entradas dos mercados de carne e do mercado hortifrutigranjeiro”.

Por Pedro Nascimento, estudante de jornalismo, com supervisão de Luciana Gois

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