Confira duas ótimas minisséries baseadas em fatos – mas nem parece

 Confira duas ótimas minisséries baseadas em fatos – mas nem parece

‘Alias Grace’ e ‘A Very English Scandal’ mostram histórias reais que passariam por ficções

Está sem tempo e/ou concentração para embarcar em histórias com várias temporadas? Vamos então de minisséries. Pegando o barco da coluna anterior, quando externei minha admiração levada ao ápice por Madam C.J. Walker, as duas sugestões de hoje também abordam fatos, igualmente adaptadas de obras literárias que se debruçaram sobre eles: Alias Grace (Vulgo Grace), na Netflix, e A Very English Scandal (Um Escândalo Muito Inglês), na GloboPlay.

 

Ambas atestam que a vida real fornece elementos capazes de surpreender pelo inusitado, no patamar de qualquer ficção.

“Alias Grace” é uma entre várias obras importantes da premiada escritora canadense Margaret Atwood. Não pela primeira vez um livro seu vira série, ela é autora de “O conto da aia”, origem da aclamada “The Handmaid’s Tale”, no título original em inglês. Comecei a assistir essa, mas não fui adiante porque me perturbou em demasia. Alias Grace se mostra mais facilmente digerível, embora fiel à história real, ocorrida no Canadá na década de 1840, que não se pode classificar como leve. Na série, a escritora Margaret Atwood faz inclusive uma pequena participação como atriz – uma “ponta”, no jargão da arte cênica.

Grace Marks (Sarah Gadon) foi uma criada que, aos 16 anos, pegou prisão perpétua sob a acusação de cúmplice no assassinato do patrão, Thomas Kinnear (Paul Gross), e da governanta da casa dele, Nancy Montgomery, interpretada pela gloriosa Anna Paquin, que acompanho desde “O Piano”, filme de 1993 por cuja atuação ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante e o título de segunda atriz mais jovem a levar para casa a estatueta dourada, aos 11 anos. Só perde para Tatum O´Neal, premiada na mesma categoria aos 10.

O enredo tem início com Grace Marks já na prisão, em Toronto. Seu bom comportamento viabilizou que prestasse serviços durante o dia na casa do administrador da penitenciária. Corria o ano de 1859 quando o médico Simon Jordan (Edward Holcroft), pesquisador sobre doenças mentais e perfis de homicidas, chega à cidade e se dedica a ouvir a história de Grace, desde sua infância na Irlanda, onde nasceu, até a mudança da família para o Canadá – uma viagem de barco que renderia um filme de horror. O médico fora contratado por um comitê que agregou de religiosos a políticos pedindo a libertação da moça, impressionados pelos relatos escritos por ela – a despeito de ter pouca instrução – e também por seu comportamento pacato, mesmo diante das barbáries de que foi vítima em casa e, depois, nas instalações “correcionais” onde cumpria sua pena.

As conversas entre Grace e o médico Simon Jordan transitam pelo tempo – passado e presente se alternam, de modo a apresentar as vivências da moça, quase sempre imersas em sofrimento.  Mas a personalidade que o médico se propõe a desvendar revela um caminho árido. A suposta criminosa está longe de uma transparência óbvia. Num átimo, vai da fragilidade à força, expressa num conformado entendimento da vida imposta a mulheres de sua posição social. Isso inclui sucumbir aos caprichos e, para muitas, às taras de seus empregadores.

 O doutor Jordan absorve cada palavra de Grace, tenta manter distanciamento profissional, mas não raro transparece em seu rosto, discretamente, asco pelos comportamentos abomináveis que a ex-criada suportou e misericórdia por ela. Ponto para o ator britânico Edward Holcroft, que conferiu ao papel as exatas nuances.

Ponderei se deveria bancar tamanho spoiler e acabei optando pela validade de advertir honestamente: não espere concluir se Grace Marks foi de fato culpada pelo crime que a deixou à mercê de abusos variados, por ignorância de seus autores ou tão somente pelo pendor à maldade destes.  Da acusação ao julgamento, a história da ex-criada sofreu interferência do desprezo por imigrantes e das “normais” distinções de classes, cenário seguramente desfavorável à justiça, na acepção utópica de tal conceito.  O que sobrou a Grace foi a absoluta impotência, inclusive diante dos desvarios do advogado incumbido de sua “defesa”, mais preocupado com a atenção da imprensa do que em executar direito o trabalho que lhe cabia.

Isso exposto, tampouco há elementos que justifiquem presumir com facilidade a  inocência de Grace Marks. Não por acaso a palavra recorrente em várias críticas sobre Alias Grace é “ambiguidade”, e aí reside o principal mérito da série. A narrativa levada à telinha respeita esse atributo focal do livro de Margaret Atwood, que supervisionou a adaptação, a cargo da atriz, diretora e roteirista canadense Sarah Polley, uma apaixonada pela história desde que a leu, aos 17 anos. Polley convidou a escritora e diretora Mary Harron a dirigir Alias Grace, numa parceria cujo resultado ganhou aprovação praticamente unânime, assim como a interpretação de sutileza impecável da atriz Sarah Gadon, a protagonista Grace Marks, coincidentemente nascida em Toronto, onde se passa a maior parte da história.

Em janeiro de 1998, quando o livro de Margaret Atwood foi lançado no Brasil, a autora canadense concedeu entrevista à professora universitária e escritora Leda Tenório da Motta, publicada na Folha de S. Paulo sob o título: “’Vulgo, Grace’ deixa escolha para o leitor”. A minissérie, brilhante e acertadamente, faz o mesmo com o público.

A segunda sugestão ilustra a lerdeza com que a espécie humana se liberta da mediocridade a corromper a evolução civilizatória. Inocente ou culpada, Grace Marks passou por um julgamento em cujo alicerce estiveram desprezos cumulativos, por sua qualidade de mulher, de pobre e de imigrante. Transcorridos mais de cem anos, intolerância e hipocrisia ainda explicam, ao menos em parte, a situação vivida por um proeminente político britânico, foco da minissérie A Very English Scandal (Um Escândalo Muito Inglês).

O enredo aborda os fatos que antecederam e ocorreram durante o que ficou conhecido como “o julgamento do século” na Inglaterra, por envolver um promissor e carismático líder político de carreira em contínua ascendência, acusado de tramar o assassinato de seu ex-amante. O episódio virou escândalo dos grandes, pela situação em si e, para piorar, porque o namoro entre os dois homens começou em 1961, antes disso ser descriminalizado. Sim, o ato homossexual masculino foi crime na Inglaterra e no País de Gales até 1967; na Escócia, até 1980, e na Irlanda do Norte, até 1982. Aparentemente, resolveram conceder relativa paz às mulheres gays, ou se esqueceram da existência delas.

A minissérie, baseada no livro do jornalista John Preston, marcou a volta à TV britânica de um dos mais icônicos atores ingleses – Hugh Grant –, após um hiato de quase 25 anos, desde que em dezembro de 1993 protagonizou um episódio do sucesso “Performance”, da BBC, rede que exibiu A Very English Scandal, em maio de 2018.

 Notabilizado por protagonizar muitas comédias românticas de sucesso, Grant dá um show, reforça toda sua versatilidade no papel de Jeremy Thorpe, o primeiro político britânico contemporâneo a ser julgado por assassinato, em 1979 – no caso, sob a acusação de conspirar em prol desse objetivo, tendo por vítima Norman Scott, rapaz com quem vivera um relacionamento bastante significativo, pelo que se depreende, muito além de sexo casual. E aproveito para advertir que há algumas cenas tórridas na minissérie.

Em 1967, Jeremy Thorpe é eleito o mais jovem líder do Partido Liberal – e o mais jovem na liderança de qualquer agremiação política britânica em um século. Atento à conveniência de manter uma imagem adequada a seus propósitos, ele resolve se casar, obviamente com uma mulher. Termina a relação com o agora modelo Norman Scott, desencadeando a sucessão de fatos responsável por levá-lo ao exílio da vida pública. A acusação surgiu de um incidente bizarro, no qual o cachorro de Scott foi morto a tiros. A promotoria afirmou que o plano era matar o próprio, alegando o interesse de Thorpe em o silenciar, já que o modelo estava abrindo o verbo sobre o relacionamento vivido com o proeminente líder liberal, sempre negado por este.

O talento demonstrado em A Very English Scandal por Hugh Grant se ampliou pela química evidente com Ben Whishaw, que interpreta Norman Scott, papel pelo qual ganhou, em 2019, o Globo de Ouro na categoria “melhor ator coadjuvante”. Na cerimônia de entrega, a propósito, Ben Whishaw, gay assumido, dedicou o prêmio ao Norman Scott verdadeiro. Enalteceu a coragem dele em se assumir homossexual e o classificou como “herói e ícone queer”.

Não posso entregar a história toda, mas achei excelente resumo da minissérie em uma crítica do jornalista Brian Lowry, da CNN: “Cheia de humor astuto, comentários pungentes e reviravoltas bizarras, é quase como o casamento perfeito de ‘The Crown’ (A Coroa) e um filme dos irmãos Coen”.

 Aliás, um amigo e colega de parlamento de Jeremy Thorpe, Peter Bessell, é interpretado por Alex Jennings, ator de papel relevante na aqui já comentada The Crown: Edward VIII, o Duque de Windsor. Um diálogo entre os dois, ambos gays não assumidos, logo no início de A Very English Scandal, dá o tom do problemaço que viria: “Não tenho certeza se vale a pena terminar na prisão por algum rapaz”, alerta o correligionário a Thorpe.

Lembram da suposição de que Grace Marks foi ao banco dos réus com pouca chance de obter justiça de fato? No caso do parlamentar britânico e dos outros três acusados da tentativa de assassinato, a parcialidade fica clara como o dia. O juiz a presidir o caso se refere a Norman Scott como “fraude”, “esponja”, “chorão” e “parasita”, encaminhando, na maior cara de pau, os jurados à absolvição do quarteto. Mas isso não foi suficiente para salvar a carreira política de Jeremy Thorpe.

Russel T Davies, autor do roteiro da minissérie, disse que o texto foi mostrado a Norman Scott em 2018, como “um sinal de respeito e devida diligência”, já que não havia obrigação de assim proceder. Ao que o diretor Stephen Frears emendou: “ele ficou muito satisfeito, riu e chorou”. Pelo que pesquisei, Scott está vivo e mora na Inglaterra, cercado de cães.

Quanto a Jeremy Thorpe, falecido em 2014, aos 85 anos, de Mal de Parkinson, vale lembrar o que disse numa entrevista em 2009, já enfermo, sobre o escândalo a resultar em sua debacle política: “Se acontecesse agora, acho que o público seria mais gentil”. Torço para essa percepção ser correta, mas tenho minhas dúvidas.

Por fim, deixo à reflexão uma frase célebre do jurista uruguaio Eduardo Juan Couture, consagrado mundialmente e cujos ideais sobrevivem como exemplo até hoje no âmbito jurídico,  apesar de sua morte em 1956: “Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça”.

Para maratonar:

Alias Grace – Seis episódios, completa na Netflix;

A Very English Scandal – Três episódios, completa na GloboPlay.

PS: Se você aprecia histórias inspiradas em fatos e pessoas reais, confira também as colunas sobre Modern Love (Amor Moderno) e Everybody hates Chris (Todo mundo odeia o Chris), comentada junto com outra ótima no gênero, Seinfeld.

 

Blogs e Colunas | Levando a Série 

Monica Pinto é Jornalista, editora do portal F5News, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná e viciada em séries

E-mail: [email protected]

 

Posts Relacionados